Relato de Parto – Parte 2 – No hospital

Entrar no carro para ir para o hospital já exigiu bastante concentração, cada buraco era um incomodo, parecia que ia nascer ou a bolsa ia estourar.

Mesmo com as ruas não cooperando muito, cheguei com a bolsa intacta e com a Olívia bem quetinha. Contrações ainda de 3 em 3 minutos. Eu estava bem ansiosa nesse momento, porque haviam algumas questões que não sabíamos como seriam, se haveria alguma sala de parto PPP disponível, qual equipe me atenderia e se deixariam entrar a Janine (não há legislação que permita a livre entrada de Doulas no SUS, mas tínhamos esperança que dependendo do plantão, deixariam ela entrar).

Mas como chegamos à noite, na hora da entrada de visitas, a entrada da Janine foi vetada, alias, poderia entrar apenas um acompanhante. Como eu não sabia a quantas andava o processo da dilatação e em hipótese alguma queria que o Marcos perdesse esse momento, escolhi o marido. Faríamos a internação e depois veríamos se ela poderia entrar.

Cheguei no Centro Obstétrico e foi chamada para triagem em menos de 10 minutos, fui avaliada por uma enfermeira, e depois já passada para um médico, estava com 5 cm de dilatação e contrações ritmadas e frequentes. Apresentei meu plano de parto, fiquei surpresa que o médico leu com tanta atenção. Ele me questionou o por quê de ter feito uma cesarea anteriormente e me questionou alguns pontos do Plano de Parto, pois achou um pouco radical.

A cesarea ele concordou que foi mal indicada pelo meu histórico, já o Plano de Parto expliquei que dessa vez estava especificando tudo que preferia, pois não queria correr o risco de ser convencida a fazer outra cesarea sem real necessidade. Uma enfermeira obstetra veio nos ver na sala de triagem, ela verificou com o médico se eu estava apta a utilizar a sala de PPP (sala em que as enfermeiras assumem o atendimento do parto), ele disse que sim. Ufaaaa, eu poderia ir para a sala PPP, teria espaço para me movimentar, teria bola de pilates, teria privacidade, teria apoio do marido 100% do tempo, um ambiente calmo e até música.

Depois da sala de triagem fui para sala de pré-parto coletiva, tomar o antibiótico para a bactéria estreptococos que tinha dado positiva em exame prévio, monitorar as contrações, tirar sangue pro exame de praxe de HIV e por fim tomar um banho de água quente bem relaxante.

Como em qualquer hospital, alguns da equipe eram muito solícitos e simpáticos, outros já mais impacientes, mas no geral tudo tranquilo. Fiquei no pré-parto coletivo até perto da meia-noite (que também tinha bola de pilates pra quem quisesse usar, e podia comer gelatina e beber líquidos), pois não havia sala PPP vaga quando cheguei. Quando a enfermeira obstetra responsável pela sala PPP nos levou pra lá foi uma maravilha, ai sim, toda equipe um amor, todas carinhosas e atenciosas, me senti uma rainha. Quando tive o Fernando, as enfermeiras mal me olhavam ou conversavam, não podia comer nem beber nada e cheia de soro na veia, nada de me movimentar.

Enfim, sabia que naquele ambiente teria garra e força para ter minha Olívia. Infelizmente não teve jeito da Janine entrar, por ser doula e estar em uma atividade remunerada de forma particular em uma instituição pública, não fiquei frustrada, porque ela passou o dia me incentivando e me dando força para esse momento e eu já estava preparada que ela talvez  não pudesse participar do parto. O Marcos avisou ela, que ficou torcendo pela gente de casa.

Agora éramos nós 3, eu, Marcos e Olívia, longas horas se passaram. Caminha pra lá e pra cá, se agaixa, levanta, senta na bola, toma banho quente, as contrações mais doloridas, intervalos curtos e cansaço batendo. Marcos foi um companheiro maravilhoso, incansável, me apoiando, sem passar qualquer insegurança que tivesse, ele estava firme e forte para que eu me sentisse capaz de enfrentar qualquer coisa, ele queria esse parto tanto quanto eu, e isso foi fundamental.

Perto das 5h da manhã com 6 pra 7 cm de dilatação cogitei tomar analgesia, precisava relaxar, parece que o trabalho de parto tinha estacionado, e eu estava sem combustível, queria dormir, queria que ela nascesse, achava que quase 24 horas acordada e trabalhando pra que a Olívia viesse ao mundo já estava de bom tamanho…heheh

Falamos com a enfermeira, ela disse que eu estava indo tão bem, que tinha uma boa dinâmica, que não precisava de peridural, aí sugeriu que rompessemos a bolsa, para tentar acelerar o processo. Eu já tinha lido sobre as dores após o rompimento da bolsa, sabia que era bem provável que a dor suportável que eu tinha, virasse insuportável. Decidi pagar pra ver, aliás, estourar pra ver.

Estourar a bolsa foi um procedimento bem tranquilo, não doeu praticamente nada, mas era água pra tudo que é lado, me senti a cascata do Niagara. Quando as primeiras contrações pós bolsa rompida vieram, vi o que me aguardava. A dor de parto chegou, ou eu que havia desembarcado na partolândia.  Doia muito, não vou mentir, me sugeriram ir para o chuveiro e ficar lá o máximo de tempo possível, Fiquei uma meia-hora eu acho, só que o calor já estava me deixando zonza, além disso a cada contração eu só queria me ajoelhar no chão e gritar. A garra e a coragem se esvaiam pelo ralo. O Marcos tentava ser firme comigo, dizendo que eu ia aguentar, eu só dizia que queria analgesia, chamamos a enfermeira novamente, aí ela me explicou que como eu tinha a cesarea prévia, se tomasse analgesia teria que voltar para o pré-parto coletivo para ser monitorada diretamente por médicos e que o parto seria em uma das salas tradicionais.

Baixou um Barack Obama em mim junto com a frase “Yes, we can do it”. Aguentei mais uma hora no osso (literalmente no osso do quadril, hehehe), mas não dava mais, cada contração vinha com 30 segundo de dor insuportável. Mudou o plantão e eu implorei pela analgesia, a equipe foi falar com os médicos, ok, eu estava autorizada a receber a peridural. Estava com aproximadamente 8 cm de dilatação.

Ah que maravilha, Deus abençoe os anestesistas, que alivio, fui para o pré-parto coletivo bem confortável, tinha vontade de dormir, mas a médica havia me avisado que o efeito duraria entre 1 hora e 1h30. Dei uma bela relaxada, então quase batendo o ponteiro para 1 hora depois da analgesia, 9h45 da manhã de terça-feira, 8/3, Dia Internacional da Mulher, as contrações foram voltando, tímidas e calmas, bem diferentes das que aguentei por quase 3 horas. Uma médica veio me examinar, eu estava totalmente dilatada e já sentia uma pressão no útero. Foram chamar o Marcos, que tinha ficado do lado de fora enquanto eu tomava analgesia e me levaram para a sala de parto.

Naquele momento tudo pareceu muito rápido, me ajeitaram na cama de parto, Marcos sentou do meu lado, médica examinou novamente, agora eu sentia contração e vontade de fazer força, não tinha dor. A médica junto com a residente prepararam o material para episio, então questionei se seria realmente necessário, ela argumentou que seria melhor não forçar o útero por conta da cesárea, eu já não estava mais em posição de querer discutir, aceitei, elas fizeram anestesia local e me falaram que só iriam fazer se fosse realmente necessário. Tudo bem, eu estava anestesiada, e elas foram educadas e respeitosas comigo, mesmo sendo uma intervenção que eu não queria, não me senti em nenhum momento violentada.

As contrações vinham e eu fazia força, era surreal saber que estava trazendo ao mundo minha filha, que meu marido segurava minha mão e que eu realmente iria passar pelo parto normal. Senti a garra de volta, senti vontade imensa de ter minha filha nos braços, me senti na linha de chegada de uma maratona, no topo da montanha depois de uma longa escalada, ela vinha, estava coroando, as médicas falavam dos cabelinhos loirinhos, eu queria ela comigo. Força, força, força, enfim ela foi diretamente colocada no meu colo, que emoção, ela tava ali e eu podia tocar nela. Dessa vez eu não estava amarrada em uma mesa, nem passando mal com uma anestesia sem sentir minhas pernas, dessa vez, independente da ajuda que tive para trazer ela ao mundo, era 100% eu ali para ela, mãos, pernas, braços, abraços e beijos. Não enxergava mais ninguém naquela sala de parto além de nós 3, pai, mãe e filha que passaram por essa experiência e que com certeza se tornaram mais fortes juntos.

Olívia nasceu dia 8/3/2016, as 11h00, com 3,990kg e 50,5cm, grande e saudável.

520db0b3-68ef-4546-bf4b-ed3d98dd2a01

Aproveito para agradecer ao excelente time de enfermeiras obstétricas do Hospital Conceição, que foram essenciais nesse parto, a minha doula querida que apesar de não estar presente na hora do parto, esteve presente na minha preparação para este momento tão importante, a equipe médica que nos atendeu que também nos incentivou ao parto normal, ao meu marido que foi o melhor companheiro que uma mulher poderia ter e a Deus que nos abençoou com 2 filhos lindos, e com saúde para viver esse parto.

 

 

 

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s