Toda mãe precisa de cuidado

A frase é clássica “Quando nasce um filho, nasce uma mãe”, mas nasce uma rede de apoio também?

Com quem a gente pode contar nessa jornada da maternidade?

A nova colunista do blog, a psicóloga Jacqueline Amorim escreve pra gente sobre a importante rede de apoio.

Rede de Apoio no Pós-Parto – A Importância do Cuidado à Mãe

É esperado que, ao longo da gravidez, a futura mãe entre gradualmente em um estado de preocupação com seu bebê, chamado em Psicanálise de preocupação materna primária, expressão tecida pelo psicanalista e pediatra Donald Winnicott, que se inicia com a gestação, chegando ao ápice logo após o nascimento, se estendendo por algumas semanas após o parto.

c86d59a6e8c6797fae2c24e2939367ff

Foto Pinterest

É um estado normal e necessário, pois capacita a mãe a se adaptar às demandas iniciais de seu bebê, de uma forma muito sensível e atenta. Não com uma perfeição mecânica, mas com uma qualidade e vivacidade que somente uma mãe muito identificada com seu recém-nascido pode conseguir. O bebê nesses estágios iniciais é absolutamente dependente desses cuidados, se comunicando de uma forma ainda muito primitiva, por isso, precisa de um ambiente que consiga decodificar, traduzir e prover as suas necessidades.

Esse estado é alcançado através de um intenso trabalho psíquico, paralelo às mudanças corporais, no qual a mãe pouco a pouco abre espaço em sua vida e em sua mente para a chegada desse bebê. É comum de acontecer que os interesses da futura mãe vão se voltando quase que exclusivamente para o bebê, e para tudo que envolve a sua chegada, tornando outros assuntos, que antes traziam muito prazer à mãe (como a profissão, por exemplo), desinteressantes e sem graça. Você já deve ter ouvido falar que algumas gestantes ficam mais esquecidas, ou mais desatentas com o passar da gravidez – esses esquecimentos temporários podem fazer parte deste processo, no qual o mundo da maternidade fica tão intenso, que toma conta do psiquismo da mãe.

Porém, como eu disse um pouco acima, esse é um estado esperado, mas nem sempre atingido, por consequência de diversos fatores. Mas, uma coisa é certa, esse estado será mais facilmente alcançado se, além da futura mãe se permitir vivenciar a maternidade, o seu entorno também permitir e facilitar essa experiência! Chegamos aí na importância da Rede de Apoio para a mãe e o bebê nos primeiros meses!

Nas primeiras semanas após o nascimento, quem estará mais apta a dispensar os melhores cuidados ao bebê sem dúvidas será a mãe. E enquanto o bebê não conseguir distinguir entre o que é seu e o que é da mãe, entre o que é interno e o que é externo, não se pode pensar em um ambiente que não esteja totalmente adaptado a ele. Mas, para que a mãe esteja livre para voltar a sua atenção exclusivamente ao seu bebê nesses primeiros momentos, e se adaptar às suas demandas, é fundamental que também sejam dispensados cuidados a ela, que a façam estar segura e tranquila para descobrir como desenvolverá este papel tão especial em sua vida: o de ser mãe.

Além disso, mesmo ela sendo a pessoa mais apta para cuidar do recém-nascido, pois ela estará identificada e conectada com suas necessidades, ela também ficará cansada, precisando dormir, também precisará tomar banho, comer, ir ao banheiro, etc. Por isso, precisará de pessoas que possam apoiá-la quando houver necessidade.

Apesar de existirem esses momentos, em que a mãe precisará que alguém cuide do seu bebê, para que ela possa cuidar de si mesma, uma Rede de Apoio não será composta por pessoas que façam pela mãe, e sim, por pessoas que estejam ao seu lado para o que ela venha a precisar! Deverá ser composta por pessoas que também estejam sensíveis e disponíveis para ficar ao seu lado nesse momento tão crucial. Algumas pessoas que já foram mães, ou que se sentem experientes para este papel, na melhor das boas intenções, acabam se achando no direito de fazer certas coisas por ela, por acharem que estão mais preparadas à função. No entanto, esse tipo de atitude um tanto invasiva acaba deixando a mãe ainda mais insegura para tomar suas iniciativas e seguir sua intuição, podendo atrapalhar o entrosamento entre dupla.

Então, o melhor que uma Rede de Apoio pode fazer é encorajar a mãe a aprender a lidar com seu bebê! Encorajá-la para que ela não tenha medo nem pressa de conhecer essa nova pessoinha. Apoiá-la para que ela possa, com paciência e tranquilidade, descobrir como se comunicar com ele; como fazer trocas afetivas; como se desenvolver na maternidade. É isso que fortalecerá o vínculo inicial entre a dupla, que será fundamental para o desenvolvimento sadio do bebê. O entendimento entre a díade requer tempo e disponibilidade. O amor e o vínculo são construídos, e isso acontece aos poucos. Com muito cuidado e zelo. Sendo assim, o bebê não precisa de pessoas que já cheguem “sabendo o que fazer”, mas sim, precisa de uma mãe aberta a essa aprendizagem e disposta a investir sua energia nessa relação.

E ter uma Rede de Apoio eficaz, que ajude e não atrapalhe, exige planejamento e organização. É importante que ao longo da gravidez faça parte do check list pensar nas pessoas que poderão ajudar. E com certeza esse período de intensas mudanças exigirá ajustes. Como uma mãe poderá ficar tranquila e voltar toda a sua atenção ao recém-nascido, se ela, além disso, precisa se preocupar com a comida, com as compras, com a limpeza da casa e com o irmãozinho mais velho? Não podemos esquecer a máxima – uma mãe bem cuidada será um bebê bem cuidado.

A presença e o envolvimento do pai do bebê também será fundamental! Sim. Quanto mais o pai fizer parte dessa experiência, mais ele ficará conectado à sua companheira/esposa e a seu filho, aumentando também sua sensibilidade para cuidar da dupla. No entanto, outros cuidados serão necessários, tarefas práticas mesmo, e certamente a contribuição de mais pessoas será imprescindível! Em outras culturas, a chegada de um bebê promove uma verdadeira comoção entre a comunidade, nas quais mãe e bebê são cercadas de cuidados e apoio. Em nossa cultura ocidental que temos a tendência a minimizar a necessidade de ajuda, ou até a menosprezar qualquer assistência. Mas certamente será fundamental contar com a cooperação de outras pessoas.

Por essas razões, aqui vão algumas dicas básicas do que se deve pensar para se ter um início mais tranquilo. A ideia não é trazer uma lista estanque, mas sim, pontos para se refletir, sempre levando em conta como a família que está se formando se sentirá mais a vontade para lidar com isso.

  • Quem cuidará da organização e da limpeza da casa? Irão contratar alguém, ou algum parente ficará responsável?

  • E a alimentação? Lembre-se que a mãe precisa de uma dieta balanceada, tanto para obter seus próprios nutrientes, quanto para passar através do leite para seu bebê.

  • Quem fará as compras e pagará as contas que são da mãe?

  • Quem responderá as mensagens e as ligações, quem cuidará das visitas? Nem todos os dias a mãe estará disposta a receber visitas, muito menos a fazer sala a elas, por mais que já se tenha combinado antes. Alguém precisará ficar responsável para lidar com esses imprevistos.

  • Quem ajudará a cuidar do irmão ou dos irmãos mais velhos? Geralmente eles ficam muito sensíveis com a chegada de um irmãozinho mais novo. Eles vão precisar de alguém que esteja preparado para lidar com fortes emoções.

  • Quem ajudará a mãe quando ela precisar descansar, comer, tomar banho, etc?

  • E quem estará apenas ao lado, para apoiar, escutar e dividir as angústias em relação a todo esse processo? A quem a mãe poderá recorrer se também quiser uma atenção e um colo?

O período certamente será de muitas alegrias e descobertas, porém, também será permeado de inseguranças, medos, angústias, acertos e erros. Ajudará muito se mãe tiver um espaço no qual possa se sentir à vontade para falar de tudo isso, sem julgamentos ou críticas. Isso a fortalecerá e fará com que se desenvolva como pessoa e como mãe.

Sabe-se que uma mãe com uma rede de apoio eficaz, ou seja, com um ambiente que proporcione estabilidade, tranquilidade e segurança para que ela vivencie a maternidade, será uma mãe com menos chances de desenvolver psicopatologias típicas do puerpério, além de diminuir significativamente o tempo ou abrandar o natural baby blues.

Então, a questão da Rede de Apoio está entre os assuntos mais importantes a se pensar e a se conversar quando uma família está esperando um novo membro! Se você é uma futura mãe, não deixe para organizar essas questões na última hora. Não tenha vergonha de pedir ajuda e mobilizar uma rede de apoio para si. Não se isole. As coisas ficam mais fáceis de serem enfrentadas quando se tem pessoas apoiando.

Para finalizar, é importante salientar que nunca se chegará a uma “situação ideal”, com tudo perfeito e sem imprevistos. Porém, a mãe estando rodeada de algumas poucas pessoas queridas, que mesmo sem saber o que fazer numa situação possam dizer “estamos juntos, vamos pensar numa solução”, contribuirá para que ela se sinta mais segura e com mais coragem para enfrentar esse enorme desafio que é a maternidade!

Jacqueline Amorim
Psicóloga CRP 07/24055
Contato: (51) 8041.1240
jacqueline.amorim@outlook.com.br

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s