Adeus querida

Eu escolhi o silêncio como escudo, mas por mais que eu tente não pensar, eu penso todos os dias, por mais que eu queira me enganar que não aconteceu…aconteceu. Tem dias que dói mais, tem dias que dói menos, mas sempre dói. Por mais que eu me convença que não havia nada que eu poderia ter feito diferente, eu penso que qualquer coisa que eu fizesse diferente podia ter evitado o pior. Tem dias que me sinto mais leve, porque tenho a sensação que ela só está viajando e que uma hora vai voltar, que vai brincar com os netos, vai contar alguma história sem pé nem cabeça, que vamos rir e que também vamos brigar, como de costume.

b.6

Minha mãe sempre teve uma alma infantil num corpo de mulher, sabia ser alegre, sabia rir. Minhas lembranças dela na infância são divertidas e lúdicas. Tinha uma alma muito boa, mas tinha tanta dor dentro dela que muitas vezes a escuridão a cegava, não conseguia enxergar o que havia de bom em sua volta, não conseguia reagir as dificuldades da vida, se sentia impotente, paralisada, sempre a espera de que alguém fosse assumir a culpa pelo que estava ruim e à salvasse. A depressão à fazia vítima e lhe dava um peso sobre-humano para carregar.

Desde a minha adolescência tinha dificuldade de entendê-la, de aceitá-la como uma pessoa mais fragilizada. Não tinha noção do poder da depressão. Me dói ter brigado tantas vezes com ela, e  rezo para que tenha entendido que eu só queria que ela fosse uma pessoa melhor, mais forte e mais feliz.

Repito para mim mesma e para os meus irmãos que a depressão é como um vício, que só quem sofre dessa doença tem o poder de dizer chega, de mudar. Sempre defendi que o poder de mudança está em nós mesmos, que não podemos mudar ninguém. Podemos dar apoio, amor, ferramentas, mas tem uma hora que nada disso serve mais. Penso nisso, repito isso, incansavelmente, como forma de me sentir confortada e não sentir o peso da culpa que fica em que ama os que decidem partir.

Mas a verdade é que eu queria ter descoberto alguma fórmula mágica para ter ajudado ela ainda em tempo. Daria tudo pra ter encontrado este tesouro, daria tudo pra ter salvado minha mãe.

Dizem que é só como mãe que descobrimos o amor incondicional, para mim não é verdade, eu  descobri esse amor a muito tempo, meu amor por ela foi e é eternamente INCONDICIONAL.

Depois que a encontramos, já sem vida, meu irmão foi ao apartamento em que ela morava com meu pai e uma tia, para organizar as coisas e entregarmos o apartamento. Foi também com a vontade de encontrar alguma mensagem ou carta que nos explicasse a decisão dela, que nos dissesse um adeus. Ele encontrou várias cópias de um texto que ela escreveu há muitos anos atrás em um jornal em que foi cronista; e dizia assim:

¨Free-Way

    Francisco caminhava a passos lentos. Abriu a porta do carro e, já sentado ao volante, a chave na ignição, ligou o motor. 

   Iniciou o percurso que o levava ao trabalho, pela rua Dona Alzira. Mas não conseguia concentrar-se nos compromissos que tinha à sua frente, como de costume. Ao invés, a imagem da espessa adormecida em meio à rotina do início da manhã. Francisco chegava à conclusão que, ele mesmo , perdia-se na mesmice do cotidiano de sua vida. Suas mãos, ao volante, crisparam-se. Não queria mais abraçar o dia que tinha pela frente. Salário menos que o necessário e gastos a mais, a mais, a mais. Mesmo com tanta economia tentada, filmes não assistidos, chopes não tomados em um bar qualquer.

   O volante em sua mão não seguiu o percurso. Não teve tanto curso para continuar fazendo o que dizia ser direito. Quando deu por si, Francisco estava na Avenida Assis Brasil. Andando um pouco mais, na Free-way. O vento batia diferente em suas faces. 

   Não olhou para trás, nem pelo espelho retrovisor. Caminho livre. Livre e cheio de vento. Adeus, querida.

 

12509090_10153414898171795_3941036996218958054_nMinha mãe, Rejane Jost, desapareceu no dia 2 de Fevereiro de 2016, e depois de incansável busca, de ajuda de  familiares, de muitos amigos e apoio nas redes sociais, o corpo dela foi encontrado numa manhã de Domingo, dia 7 de Fevereiro, no Lami. Com 51 anos, ela deixou 3 filhos adultos, e dois netos . A sepultamos dia 8 de Fevereiro, exato 1 mês antes do nascimento  da Olívia, e 3 meses antes do Domingo dia das Mães.

Dia 8 será um misto de profunda tristeza, e profunda alegria, dia de morte, dia de vida, de chegada e partida, de AMOR.

Além de uma mensagem para, não encontramos até hoje qualquer registro ou mensagem de adeus para os filhos e netos, então tomamos este texto, Free-way, como mensagem de despedida. Penso que a opção de morrer lhe exigiu tanto, que se expressasse em palavras o amor por sua família à faria desistir do que ela achou que seria melhor.

Penso e penso muito, todos os dias. Não há nada que a trará de volta, não há nada  que mudará nossa história, não há questão que mudará nosso amor.

Adeus mãe querida,

 

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5 comentários sobre “Adeus querida

  1. Ale, não consigo imaginar tudo o que vocês passaram e o quanto deve doer a perda de uma mãe, ainda mais nessas circunstâncias. Que Deus dê forças a você e sua família para encontrarem conforto na esperança que ela está bem e olhando por vocês.

    Beijo grande,

    Claudia Bins

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  2. Imagino sua dor ! Mas não se culpe. Não somos responsáveis pelos atos das outras pessoas. Foi uma decisão dela e mesmo não compreendendo temos que aceitar.

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  3. Lindo texto, emocionante!!
    Escrevo com olhos marejados, imagino sua dor!!
    Estamos aqui de passagem, caminhando, aprendendo a cada dia, e como vc disse, mas em outras palavras, a vida é um recomeço, sua pequena é sopro de vida, de esperança!!
    Que Deus a receba e que ela esteja em paz!!
    Grande beijo!

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